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Blog História do Futebol & (MINAS GERAIS) & Artigos-R. Trida & Futebol Feminino Ruy Trida em 13 Set 2008

Glamour usa chuteiras

Em fevereiro de 1959, a revista “O Cruzeiro” publicou um belo artigo sobre o futebol feminino, que agitava a cidade de Araguari, no Triângulo Mineiro, no final da década de 50.

“GLAMOUR” USA CHUTEIRAS
Por José Franco

Apesar da chuva que cai, o aficionado não arreda pé do Estádio Vasconcelos Montes. Os holofotes iluminam a cancha, quase já transformada numa piscina nesta noite de gala em Araguari, a capital do esporte do Triângulo Mineiro. A todo instante, os narradores esportivos das duas emissoras locais mandam para o ar seus comunicados, era anunciando o início do jogo, ora afirmando que a peleja será transferida para o dia seguinte. Paulo Nogueira Cruvinel, presidente do Araguari Atlético Clube, fica ainda mais indeciso quando a torcida impaciente o chama as falas.

Como é, presidente, esse jogo sai ou não sai?

O presidente está de guarda-chuva e calças arregaçadas. Invoca o mau tempo. Aponta para uma nuvem que esvoaça logo acima das arquibancadas. Um torcedor exaltado não perde a vaza.

Ora, presidente, esse nuvem não é de chuva não. É fumaça dos foguetes.

Começa, por fim, a partida principal da noite, reunindo as equipes do Araguari e Fluminense, os dois quadros rivais da terra. Mas a assistência, em unissono, manifesta seu completo descontentamento. Eis havia ido a campo, sobretudo, para ver a preliminar. Dado o estado pesado da cancha, o futebol feminino não pode se exibir desta vez. Ficou decidido que o time de moças jogaria dois dias depois, em Uberlândia, cidade vizinha. Parece curioso, mas a verdade é que bom número de jovens, e jovens formosas, pratica esse esporte em Araguari. Futebol autêntico, com chuteiras, meias, calção, camisa. Juiz e “bandeirinhas”. São de “amargar” as filhas de Eva; em pouco tempo dessa interessante experiência, já aprenderam a driblar, marcar gol e… brigar com o juiz. Se o árbitro não atua com cuidado, as que se julgam prejudicadas com trilo marcando impedimento não deixam para depois: reúnem-se, param o jogo, até que o juiz dê as devidas explicações. Estrearam numa quarta-feira antes do Natal.

O futebol masculino não estava mais atraindo o público. Houve, então, a necessidade de se cogitar de um espetáculo que pudesse oferecer atração e êxito de bilheteria. Surgiu a idéia do time de moças. Convocadas pelo rádio, quatro dezenas de jovens compareceram, dispostas a colaborar. Ney Montes, o mais popular dos esportistas de Araguari, movimentou a “Terezinha”, sua velha ramona de 1928. Rodou com o velho automóvel toda a cidade. A idéia pegou e hoje já é realidade: as moças deram o espetáculo, gostaram do futebol e quiseram continuar. Agora, quase três times estão formados, só de moças – de 14 a 20 anos de idade. E como são aplaudidas!

No domingo, a “Terezinha” de Ney Montes rodou para Uberlândia, com os repórteres de “O Cruzeiro” a bordo. Os quadros femininos do Araguari fizeram uma exibição máscula: moroso, o jogo, mas futebol vistoso, que atrai pela grande vibração. As arquibancadas por pouco não vem abaixo. O tempo estava de cara feia, marcando chuva. Mas o espetáculo constituiu o maior sucesso dos últimos tempos, superando em arrecadação (120 mil cruzeiros), o último jogo, quando os uberlandenses receberam a visita do Botafogo carioca, que trazia, na sua equipe, Garrincha e Didi e toda a sua fama de Campeões do Mundo.

Pesquisa: Teresa Cristina de Paiva Montes Cunha, de Uberlândia – MG

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